Como a Tecnologia Digital Twin Está a Revolucionar as Opções de Tratamento da Pele

O que um “gémeo digital” pode significar para os seus cuidados de pele

Imagine se o seu médico pudesse testar um medicamento numa cópia digital perfeita de si antes de o prescrever — não experimentando diretamente consigo, mas a fazer um teste virtual num modelo que corresponde ao seu perfil genético, às suas características da pele, aos seus padrões de stress e muito mais.

Esta é a ideia por trás do “gémeo digital”. Não é ficção científica. Trata-se de uma tecnologia nova que está a ser desenvolvida e que poderá ajudar os médicos a prever quais os tratamentos com maior probabilidade de funcionar para si. Para quem sofre de doenças crónicas da pele e já experimentou vários medicamentos sem sucesso, isto pode fazer uma grande diferença.

Resumo rápido

Um gémeo digital é um modelo virtual vivo de uma pessoa real, que se vai atualizando à medida que a saúde e o ambiente dessa pessoa mudam. Na dermatologia, onde a pele é fácil de observar e medir, os gémeos digitais podem ajudar os médicos a comparar tratamentos antes de os aplicar num paciente. Podem ainda ser combinados com ferramentas de laboratório que cultivam células humanas da pele em dispositivos minúsculos, juntando previsões computacionais e biologia real para validar essas previsões. A tecnologia tem potencial, mas enfrenta desafios como a partilha de dados, a privacidade, a regulamentação e a necessidade de incluir pessoas diversas no seu desenvolvimento.

De onde veio esta ideia

As raízes deste conceito remontam a simulações do mundo real usadas por engenheiros. Um exemplo famoso é como a NASA usou simuladores em terra para resolver problemas da missão Apollo 13 sem tocar na nave espacial. Os engenheiros testavam soluções no simulador e depois orientavam os astronautas. Esse mesmo princípio — testar soluções primeiro numa réplica — está a ser adaptado para a área da saúde.

Mas afinal, o que é um gémeo digital?

Pense num gémeo digital como uma pessoa digital que o representa. É mais do que um gráfico ou uma fotografia. Um gémeo junta informações como os seus genes, resultados de análises, os microrganismos que vivem na sua pele (o seu microbioma), medições da barreira cutânea, dados de dispositivos vestíveis e até as exposições ambientais. Este modelo está sempre a ser atualizado com novas informações.

Por ser um modelo, os médicos podem fazer simulações do tipo “e se?”. Por exemplo, podem testar como dois medicamentos biológicos diferentes poderiam alterar a evolução de uma doença da pele nessa pessoa simulada, sem expor o paciente real a riscos ou a longas esperas.

Por que a dermatologia é uma área ideal

A pele está à vista — é fácil de observar, fotografar e medir. Muitas doenças crónicas da pele, como a dermatite atópica (muitas vezes chamada eczema), a psoríase e a hidradenite supurativa, envolvem uma combinação de fatores genéticos, atividade do sistema imunitário, ambiente e estilo de vida. Como as causas variam muito de pessoa para pessoa, duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem reagir de formas muito diferentes ao mesmo medicamento.

Já existem medicamentos direcionados chamados biológicos que atuam em partes específicas do sistema imunitário. O que muitas vezes falta é uma forma eficaz de saber antecipadamente qual biológico vai ajudar cada pessoa. Os gémeos digitais podem ajudar a preencher essa lacuna, prevendo as respostas prováveis antes de iniciar um tratamento. (Fonte: Akbarialiabad H, Pasdar A, Murrell DF. Digital twins in dermatology, current status, and the road ahead.)

Como os modelos de laboratório e os gémeos digitais podem funcionar juntos

Está a surgir uma combinação interessante entre os gémeos digitais e os dispositivos “pele num chip”. Estes dispositivos são ferramentas de laboratório muito pequenas, revestidas com células humanas vivas da pele que se comportam como pele verdadeira — mostrando a função da barreira, sinais imunitários e inflamação.

Quando um dispositivo “pele num chip” é combinado com um gémeo digital, formam um ciclo de retroalimentação. O chip gera dados laboratoriais sobre como o tecido reage a um medicamento. Esses dados ajudam a ajustar as simulações do gémeo. Depois, o gémeo prevê os resultados para uma pessoa em particular, e essas previsões podem ser verificadas novamente no laboratório. Isto é útil para testar medicamentos sem depender apenas de modelos animais, que nem sempre reproduzem bem a pele humana. Pode também abrir novas possibilidades para estudar doenças raras da pele, onde o tecido do paciente é escasso. (Fonte: Akbarialiabad H, Murrell DF. A new dawn for orphan diseases in dermatology: the transformative potential of digital twins.)

Um exemplo prático

Imagine uma mulher de 34 anos com dermatite atópica moderada a grave que não melhorou com dupilumab (nome comercial Dupixent). Ela está apreensiva em experimentar outro biológico. Um gémeo digital criado com os seus resultados genéticos, medições da perda de água pela pele (perda transepidérmica de água), um perfil transcriptómico (quais genes estão ativos) e o registo dos seus padrões de stress poderia simular como ela reagiria a outro medicamento — por exemplo, tralokinumab (nome comercial Adbry).

A simulação poderia mostrar uma melhor resposta ao tralokinumab e até sugerir que um programa estruturado de redução do stress poderia melhorar ainda mais os resultados. Isso dá mais informações ao médico e à paciente para discutirem antes de iniciar um novo tratamento.

Onde os gémeos digitais podem ajudar além do cuidado individual

  • Ensaios clínicos: Os gémeos digitais podem ser usados como grupos de controlo virtuais em ensaios. Isto é especialmente útil para doenças raras da pele, onde realizar um ensaio tradicional com placebo é difícil ou problemático do ponto de vista ético. Usar gémeos digitais como controlo virtual pode reduzir o número de participantes necessários e acelerar a investigação. (Fonte: Akbarialiabad H, Pasdar A, Murrell DF, et al. Enhancing randomized clinical trials with digital twins.)
  • Educação: Estudantes de medicina podem praticar o diagnóstico e tratamento de pacientes simulados, ajudando-os a aprender com casos complexos antes de atenderem pacientes reais. (Fonte: Akbarialiabad H, Melin MM, Bunick CG. Digital twins in dermatology education: a systematic review and pilot study framework.)
  • Doenças raras: Para condições muito raras, onde há poucos pacientes disponíveis para estudos, os gémeos digitais e os sistemas em chip podem ajudar os investigadores a modelar tratamentos e avançar mais depressa do que seria possível de outra forma. (Fonte: Akbarialiabad H, Murrell DF. A new dawn for orphan diseases in dermatology.)

O que ainda dificulta o avanço

Esta tecnologia não vai aparecer no seu processo clínico da noite para o dia. Existem obstáculos reais a ultrapassar primeiro:

  • Os dados dos sistemas de saúde estão muitas vezes isolados, guardados em locais diferentes que não comunicam entre si.
  • As regras regulatórias para usar gémeos digitais na tomada de decisões clínicas ainda estão a ser definidas.
  • A recolha contínua de dados biométricos levanta preocupações de privacidade e segurança que precisam de proteções rigorosas.
  • Os gémeos digitais têm de ser treinados com dados de populações diversas. Se forem construídos principalmente com dados de certos grupos, podem perpetuar desigualdades na saúde.

Estas questões estão a ser debatidas na literatura científica, mas exigem tempo, mudanças políticas e um planeamento cuidadoso para serem resolvidas corretamente. (Fonte: Akbarialiabad H, Pasdar A, Murrell DF. Digital twins in dermatology, current status, and the road ahead.)

Acompanhar alterações visíveis na pele

Se estiver a monitorizar uma erupção cutânea, um sinal ou outra alteração visível, ferramentas simples como fotografias, anotações sobre sintomas e registo dos momentos em que melhora ou piora podem ser úteis. As ferramentas digitais podem ajudar a documentar essas mudanças ao longo do tempo e a preparar a consulta com o dermatologista, mas não substituem um exame ou diagnóstico profissional.

Quando deve consultar um médico

Converse com o seu dermatologista ou médico de família antes de tomar qualquer decisão sobre tratamento. Se notar uma lesão que muda, sangramento, sinais de infeção (dor crescente, vermelhidão a espalhar-se, pus), crescimento rápido ou qualquer coisa que o preocupe, procure ajuda médica sem demora.

O que esperar no futuro

Não precisa de agir em relação aos gémeos digitais hoje, mas é útil estar informado sobre o que está a chegar. Na próxima década, ferramentas baseadas em gémeos digitais poderão fazer parte dos sistemas de apoio à decisão clínica usados pelos médicos. Os ensaios clínicos poderão usar cada vez mais controlos virtuais, e os clínicos familiarizados com estas ferramentas terão voz na forma como são aplicadas.

A dermatologia sempre se baseou na observação cuidadosa da pele. Os gémeos digitais convidam esta especialidade a combinar essa capacidade visual com previsões feitas por computador. Isso pode significar menos tentativas e erros para quem tem problemas persistentes na pele, mas será necessário um desenvolvimento e supervisão rigorosos para que tudo corra bem. (Fonte: Akbarialiabad H, Pasdar A, Murrell DF. Digital twins in dermatology, current status, and the road ahead.)

Informação e precaução

Este artigo explica uma tecnologia em desenvolvimento e não oferece aconselhamento médico. As decisões sobre tratamentos devem ser sempre tomadas com o seu médico ou dermatologista. Para sintomas graves ou problemas de pele que mudam rapidamente, procure ajuda profissional sem demora.

Fontes

  1. Akbarialiabad H, Pasdar A, Murrell DF. Digital twins in dermatology, current status, and the road ahead. doi:10.1038/s41746-024-01220-7 (Fonte)
  2. Akbarialiabad H, Pasdar A, Murrell DF, et al. Enhancing randomized clinical trials with digital twins. doi:10.1038/s41540-025-00592-0 (Fonte)
  3. Akbarialiabad H, Murrell DF. A new dawn for orphan diseases in dermatology: the transformative potential of digital twins. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2024;38(12):2309-2310. doi:10.1111/jdv.20062 (Fonte)
  4. Akbarialiabad H, Seyyedi MS, Paydar S, Habibzadeh A, Haghighi A, Kvedar JC. Bridging silicon and carbon worlds with digital twins and on-chip systems in drug discovery. doi:10.1038/s41540-024-00476-9 (Fonte)
  5. Akbarialiabad H, Melin MM, Bunick CG. Digital twins in dermatology education: a systematic review and pilot study framework. 2025;145(suppl 8):S23. (Fonte)
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