Urticária Crónica Espontânea e Défice de Inibidor C1: Um Desafio no Diagnóstico

Por que este caso é importante

Recentemente, médicos relataram um caso intrigante que mostra como pode ser difícil distinguir entre dois tipos diferentes de inchaço. Uma mulher de 36 anos apresentava urticária persistente, acompanhada de episódios repetidos de sensação de aperto na garganta e dores abdominais. Os sintomas na pele pareciam indicar uma condição, mas os exames ao sangue sugeriam uma segunda condição, mais rara. Compreender a diferença é fundamental, pois os tratamentos são distintos e podem exigir exames diferentes durante as crises. (Fonte: relatório do caso abaixo.)

Resumo simples e direto

Esta mulher tinha urticária diária, com comichão e lesões que surgiam e desapareciam rapidamente — um padrão típico da urticária espontânea crónica (UEC), que significa urticária contínua sem causa aparente. Mais tarde, começou a ter episódios recorrentes de aperto na garganta e dores abdominais. Os exames ao sangue revelaram níveis baixos e função reduzida de uma proteína chamada inibidor C1 (C1‑INH), além de baixos níveis de uma proteína do complemento chamada C4. A deficiência de C1‑INH e C4 pode indicar angioedema hereditário (AEH), uma condição genética que provoca inchaço devido a uma molécula chamada bradicinina, diferente dos químicos alérgicos habituais que causam urticária. O teste genético não identificou uma mutação clara, mas tinha limitações, pelo que o AEH não pôde ser descartado. (Fonte: relatório do caso abaixo.)

O que a paciente experienciou

A mulher começou a apresentar vermelhidão generalizada, pápulas com comichão e vontade de coçar em 2020. A urticária não respondeu bem a doses elevadas de anti-histamínicos não sedativos. Corticosteroides orais ajudaram apenas temporariamente.

Nos anos seguintes, a urticária tornou-se persistente, com um padrão típico da UEC: pápulas com comichão diárias que geralmente desapareciam em menos de 24 horas. Durante crises mais graves, as lesões formavam manchas vermelhas em anel no rosto, tronco e membros.

Em julho de 2024, começaram episódios repetidos de aperto na garganta e dores abdominais ocasionais. A sensação na garganta foi descrita como aperto ou obstrução. Não houve registos de exames de imagem ou observações objetivas das vias aéreas durante um episódio grave, e a dor abdominal não foi associada a imagens que mostrassem inchaço intestinal.

O que os exames ao sangue revelaram

Repetições dos exames de complemento em março e abril de 2025 mostraram alterações compatíveis com deficiência de C1‑INH.

Em 16 de março, os resultados laboratoriais foram:

  • Atividade funcional do C1‑INH: 35,65% (referência: pelo menos 58,9%)
  • Concentração de C1‑INH: 56,69 μg/mL (referência: 81,46–291,29 μg/mL)
  • C4: 65,46 μg/mL (referência: 72,85–372,95 μg/mL)

Estes valores mantiveram-se baixos na repetição em 2 de abril. A mãe da paciente fez um único exame que também mostrou função e concentração reduzidas de C1‑INH e baixos níveis de C4, mas não apresentava sintomas e não realizou exames repetidos.

O que o teste genético revelou — e o que não revelou

A análise do exoma completo não encontrou alterações claras causadoras da doença nos genes relacionados com angioedema que foram avaliados. Contudo, o teste não incluiu todos os genes atualmente associados ao AEH (por exemplo, o gene CPN1 não foi incluído) e o laboratório não forneceu detalhes sobre a cobertura do exame. O relatório também não confirmou a capacidade do teste para detectar grandes deleções ou duplicações no gene SERPING1, que podem causar AEH.

Devido a estas limitações, um resultado genético negativo não exclui o angioedema hereditário quando os exames ao sangue indicam deficiência de C1‑INH.

Tratamentos usados e evolução

Os médicos trataram vários possíveis diagnósticos, já que não estava claro qual problema causava cada sintoma. Os tratamentos incluíram:

  • Anti-histamínicos H1 (tratamento padrão para urticária)
  • Corticosteroides sistémicos (comprimidos e metilprednisolona intravenosa durante internamento)
  • Omalizumab (injeção frequentemente usada para UEC difícil de tratar)
  • Ciclosporina (imunossupressor)
  • Icatibanto e lanadelumabe (medicamentos que atuam no inchaço causado pela bradicinina)

Foi difícil avaliar a eficácia de alguns tratamentos. Os registos sobre a resposta ao icatibanto durante as crises eram incompletos. O lanadelumabe foi usado por pouco tempo, pelo que não foi possível avaliar o efeito preventivo. O concentrado de C1‑INH (o tratamento habitual para a deficiência de C1‑INH) não foi administrado.

Durante o internamento, um corticosteroide intravenoso proporcionou apenas alívio temporário. A ciclosporina não mostrou benefício claro antes da reiniciação do omalizumab. Houve uma breve remissão, mas os sintomas regressaram pouco depois da alta. Em fevereiro de 2026, enquanto tomava omalizumab e um anti-histamínico H1, a paciente relatou menos episódios, menos urticária, menos comichão e sensação de aperto na garganta e desconforto no peito mais leves.

Como os médicos interpretaram este caso

Os autores descreveram este quadro como uma possível “sobreposição” de condições, em vez de atribuir todos os sintomas a uma única causa. A urticária diária com comichão que desaparece em menos de um dia corresponde à UEC ativa. A função e o nível baixos de C1‑INH, assim como o C4 reduzido, indicam deficiência bioquímica de C1‑INH, característica de algumas formas de AEH.

No entanto, continuou incerto se os episódios isolados de aperto na garganta e dor abdominal eram causados pela histamina (a causa habitual da urticária) ou pela bradicinina (o químico que provoca o inchaço no AEH e que não responde a anti-histamínicos). Esta distinção é importante porque os tratamentos para o angioedema causado pela bradicinina são diferentes dos usados para a urticária causada pela histamina.

Conselhos práticos para médicos e pessoas com urticária

Este caso destaca alguns pontos importantes:

  • Se alguém com urticária crónica também tem episódios repetidos de aperto na garganta ou dores abdominais recorrentes, os médicos devem considerar pedir exames do complemento (incluindo níveis e função do C1‑INH e C4).
  • Antes de concluir que um episódio está relacionado com bradicinina, é útil registar o momento das crises, quaisquer sinais objetivos nas vias aéreas ou sinais vitais durante os episódios, exames abdominais ou de imagem quando necessários, resultados laboratoriais e a resposta ao tratamento de emergência.
  • Um teste genético de exoma negativo não exclui completamente o angioedema hereditário se os exames ao sangue indicarem deficiência de C1‑INH, porque nem todos os genes ou tipos de alterações no ADN são detetados por este método.

Quando deve consultar um médico

Se tem urticária crónica e começa a sentir aperto repetido na garganta, dificuldade em respirar, desmaios ou dores abdominais intensas, procure assistência médica imediatamente. Estes sintomas podem ser graves. Converse com o seu médico sobre a necessidade de fazer exames do complemento e informe-se sobre o que fazer durante uma crise. As decisões sobre o tratamento devem ser tomadas em conjunto com a sua equipa de saúde.

Acompanhar as alterações na pele

Se as suas lesões de urticária forem visíveis, pode ser útil manter um diário simples com fotografias ou anotações sobre quando aparecem, quanto tempo duram e o que ajudou ou não ajudou. Isto pode facilitar a compreensão dos padrões e da evolução pelo seu médico.

Aviso legal

Este artigo resume um caso clínico único e destina-se apenas a informar. Não constitui aconselhamento médico. As decisões sobre tratamentos devem ser discutidas com o seu médico ou dermatologista, e deve procurar cuidados de emergência em caso de problemas respiratórios, inchaço grave ou outros sintomas urgentes.

Fontes

  1. Chen F, Yang F, Li X, Li T. Chronic Spontaneous Urticaria with Biochemical C1 Inhibitor Deficiency: A Case Report of Suspected Overlap with Hereditary Angioedema. Clin Cosmet Investig Dermatol. Published 2026 Aug 5. doi:10.2147/CCID.S634574 (Fonte: Chen F et al., relatório de caso, Clin Cosmet Investig Dermatol, 2026)
  2. Maurer M, Magerl M, Betschel S, et al. The international WAO/EAACI guideline for the management of hereditary angioedema-The 2021 revision and update. 2022;77(7):1961-1990. doi:10.1111/all.15214 (Fonte: Diretriz WAO/EAACI, 2022)
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